Aposentados no Brasil: a ilusão da renda paralela
Crença de quase metade da população sobre o próprio futuro se choca com a realidade de 88% dos que já chegaram lá


Há algo de quase cômico – se não fosse trágico – na esperança financeira que o brasileiro deposita no futuro.
Praticamente metade da população (49%) acredita que, ao se aposentar, terá alguma fonte de renda além do INSS, segundo pesquisa recente do Raio X do Investidor Brasileiro, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Um número otimista demais quando confrontado com a realidade atual: 88% dos aposentados vivem exclusivamente do benefício previdenciário.
Na prática, isso significa que milhões de brasileiros estão flertando com uma aposentadoria frágil, baseando suas expectativas em rendas complementares que, na maioria dos casos, nunca foram planejadas, poupadas ou construídas ao longo da vida laboral. É o clássico “o futuro vai dar um jeito”, em sua versão mais perigosa.
A pirâmide invertida da previdência
A pirâmide etária está virando de ponta-cabeça: menos jovens entrando no mercado de trabalho tradicional e contribuindo; mais idosos vivendo por mais tempo. O resultado é previsível: um rombo fiscal crescente e benefícios que mal cobrem o básico.
O valor médio dos benefícios gira em torno de R$ 1.800. Isso para custear alimentação, moradia, saúde e imprevistos da terceira idade – uma fase em que a renda cai e os custos sobem.
A falácia da previdência complementar
Boa parte dos 49% que acreditam em uma fonte extra de renda se refere, em tese, a algum tipo de previdência privada, imóvel alugado ou investimentos financeiros. Mas quantos efetivamente contribuem para esses instrumentos de forma regular? E mais: quantos o fazem em montantes significativos que realmente garantiriam autonomia no futuro?
O discurso da “renda extra futura” no Brasil virou mais uma narrativa escapista. Serve para aliviar a consciência de quem não poupa, não investe, mas acredita que, de alguma forma, tudo vai se resolver. É o mesmo raciocínio que lota casas de apostas e alimenta pirâmides financeiras travestidas de oportunidade. No fundo, é uma mistura de negação com desconhecimento financeiro básico.
O buraco é educacional (e político)
A raiz do problema não está apenas no bolso do brasileiro. Está, antes de tudo, na ausência crônica de educação financeira. A maioria das pessoas não sabe diferenciar rendimento líquido e rendimento bruto, tampouco entende o impacto dos juros compostos ao longo dos anos. O resultado é que o planejamento previdenciário vira lenda urbana, e não prática concreta.
Mais grave ainda é a maneira como os governos tratam o tema. As reformas previdenciárias – quando vêm – focam no ajuste fiscal, mas ignoram completamente o incentivo à construção patrimonial de longo prazo. Não há uma política séria de estímulo à previdência complementar. A dedução fiscal para quem investe em Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL), por exemplo, segue restrita e pouco divulgada.
Uma hora a conta vai chegar
A verdade, dura e simples, é que o Brasil está caminhando para se tornar um país de idosos pobres. A maioria já chegou lá – basta olhar os aposentados de hoje. E a geração que ainda está na ativa parece repetir os mesmos erros: ausência de reserva, falta de planejamento e esperança em soluções mágicas.
A ideia de que “velhice não é problema porque a gente sempre dá um jeito” é tão perigosa quanto populista. Porque quando a conta chega – e ela sempre chega – não há discurso político, nem medida provisória, nem PIX emergencial que resolvam de fato. Há apenas uma aposentadoria insuficiente, uma saúde precária e uma velhice que, ao invés de descanso, vira mais uma etapa de sacrifício.
O sofrimento é silencioso, solitário e crescente. O Brasil está envelhecendo rápido, mas, financeiramente, continua infantil.
Se você chegou até aqui, talvez esteja pronto para ouvir mais uma boa verdade, isenta do fanatismo político. Sabe onde está o responsável por mudar esse cenário? Normalmente, na frente do seu espelho.
Pedro Kazan é profissional do mercado financeiro desde 1999, empreendedor e palestrante, formado em Engenharia de Produção com ênfase em Engenharia Econômica pela UFRJ. De 2002 a 2004, fez parte do Controle Operacional da Mesa Proprietária do Banco BBM, de onde saíram os fundadores das mais renomadas Assets do Brasil, como SPX, Kapitalo e Navi. Desde 2004 dedica-se à Gestão de Recursos e Assessoria de Investimentos Private. Fundador do canal de educação financeira KZN Investimentos. Nascido no Rio de Janeiro. Vivendo em
Publicado originalmente em https://oantagonista.com.br/analise/aposentados-no-brasil-a-ilusao-da-renda-paralela/#google_vignette
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