Pular para o conteúdo principal

‘Dinheiro no Brasil é um tabu’, diz Michel Alcoforado, do best-seller ‘Coisa de Rico’

‘Dinheiro no Brasil é um tabu’, diz Michel Alcoforado, do best-seller ‘Coisa de Rico’

O antropólogo e comunicador digital de 39 anos fala das suas descobertas ao estudar o topo da pirâmide brasileira durante mais de quinze anos
MODO OSTENTAÇÃO - O especialista: mergulho nos hábitos e valores das elites (./Divulgação)

Por que estudar os ricos? Durante muito tempo, nossas ciências sociais estudaram só os mais pobres do Brasil. Ao mesmo tempo, se criou um silêncio em torno dos mais ricos. Com meu livro, quero dar visibilidade para um grupo que não era estudado, mostrando como nós, ricos e não ricos, trabalhamos arduamente para manter as coisas mais ou menos como estão. O estudo sobre as elites mostra um lado da sociedade que estava escondido.

Coisa de Rico (Todavia), um dos livros de não ficção mais vendidos do momento, traz uma discussão sobre quem seria o rico “de verdade”. Quem é ele? O rico de verdade é aquele que consegue convencer os outros de que é rico. Mais importante, o rico de verdade é o outro, nunca é a gente. É a pessoa que tem mais coisas do que você tem. Se alguém conversar com pessoas que têm salário de 30 000 reais e perguntar se elas são ricas, elas vão dizer que não, que rico é o cara que ganha 50 000. Mas quem ganha 50 000 por mês vai falar que rico de verdade é o que ganha 100 000 reais, e assim por diante.

Que tipo de comportamento difere o novo-rico do rico de berço? Os ricos tradicionais vão fazer questão de apagar suas origens para mostrar aos outros que são ricos desde sempre. O modo como organizam suas casas ou como se vestem deve passar a ideia de que tudo sempre esteve ali. Os novos-ricos são o contrário. Eles precisam sempre marcar, através das coisas que conquistaram, em que momento ficaram ricos. Sabem a data em que compraram o carro, quando fizeram novos amigos ou se mudaram para seus prédios.

De onde vem nosso fascínio pelo universo dos ricos? Esse é um traço brasileiro. Temos um modelo de sociedade onde está todo mundo preocupado em descobrir o que os ricos fazem para parecerem ricos. O fascínio vem da ideia de que só o fato de simular ou performar riqueza já é meio caminho andado para ser percebido como rico.

Qual a raiz desse comportamento baseado em aparências? A raiz está na forma como marcamos as diferenças em relação aos outros no Brasil. Aqui, dinheiro é um tabu. Para ele ganhar sentido na sociedade brasileira, é preciso transformá-lo em coisas. Nossa preocupação com a imagem está diretamente atrelada a uma dificuldade histórica, social, cultural de lidar com o dinheiro e entendê-lo.

Qual história mais o surpreendeu? Posso falar que o perfume comprado a 15 000 euros para resgatar o cheiro da família me chocou. Que os apartamentos nababescos me chocavam, mas tudo isso faz sentido do ponto de vista daquelas pessoas. Elas compram aquilo que compram e fazem o que fazem não porque elas têm um comportamento irracional, mas porque precisam mostrar ao mundo quem elas são. Então todo comportamento, por mais que fosse caro e exótico, foi-se mostrando normal.

Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2025, edição nº 2961

Disponível em https://veja.abril.com.br/cultura/dinheiro-no-brasil-e-um-tabu-diz-michel-alcoforado-do-best-seller-coisa-de-rico/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Taxas da previdência privada podem consumir quase metade da aposentadoria

Mais de 40% da sua aposentadoria pode ficar com a gestora do seu fundo de previdência em vez de entrar no seu bolso. Essa pode ser diferença entre deixar num plano que cobra 1% ao ano e um de 4%. Uma disparidade de três pontos percentuais na taxa parece pouco. Não é. Ao longo de 30 anos, eles podem formar uma mordida de mais de 40% em cima do total – na comparação entre dois fundos que renderam o mesmo tanto. Ou seja, a cada R$ 1 mil brutos que você acumular, R$ 400 vão embora. Nas simulações que você vê na tabela aqui embaixo, usamos como premissa aportes mensais de R$ 1 mil em um VGBL, o tipo mais comum de previdência privada, mais uma rentabilidade média anual de 10,6% ao ano – que foi o retorno médio do  CDI  entre 2005 e 2025. É exponencial. Quanto mais longo o prazo, maior a perda com as taxas. Mas os valores para intervalos menores também são relevantes. Em 10 anos, os três pontos percentuais de diferença significam 13,5% a menos. Em 20 anos, o prazo mais comum para pla...

Previdência privada: Renda+ perde para o VGBL, mas tem uma arma escondida

Planos de previdência e título de aposentadoria do Tesouro são animais bem diferentes. Entenda os pontos fortes de cada um Existem duas formas simples de planejar a aposentadoria: contratar um plano de  previdência privada  ou usar um título público específico para isso, o  Tesouro Renda+ , uma opção recente, que surgiu em 2023. Apesar desse ponto em comum, eles são animais bem diferentes. Cada um serve para um perfil específico – e vamos comparar os dois aqui. Os planos de previdência privada, vale lembrar, têm aquelas duas modalidades: PGBL e  VGBL . Esta última é a mais popular, de longe. Para simplificar a comparação com o Renda+, então, focamos aqui no  VGBL . Mãos à obra. Vamos pegar como ponto de partida um aporte mensal de  R$ 1 mil . Ao longo de 24 anos, isso significa  288 depósitos , ou seja, R$ 288 mil no total. Por que 24 anos? Porque no Renda+ você é obrigado a escolher um ano específico para o fim do período de acumulação, sempre em...

Veja 5 tendências da previdência privada que devem ganhar força em 2026

Veja 5 tendências da previdência privada que devem ganhar força em 2026 O mercado de previdência privada aberta desacelerou em 2025, impactado principalmente pela cobrança de 5% de IOF em aportes acima de R$ 300 mil por seguradora nos planos do tipo VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre) a partir da metade do ano. Segundo a Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), que representa as empresas que operam no ramo, como resultado, de janeiro a novembro de 2025 o setor arrecadou 142 bilhões – queda de 19,6% em relação a 2024, ou seja, R$ 36,5 bilhões a menos. Enquanto os aportes diminuíram, os resgates (dinheiro sacado pelos participantes) subiram 13,9%, para R$ 140 bilhões. Por outro lado, regras mais rígidas, expectativa de benefícios menores e um ambiente econômico que exige mais organização torna mais difícil para quem deseja uma aposentadoria confortável contar apenas com o INSS. Nesse cenário, a previdência privada ainda segue como uma das alternativas mais seg...