Novela do Banco Master acendeu no mercado o alerta de que esses investimentos, apesar de serem classificados como renda fixa, também têm riscos
A sequência de liquidações envolvendo o Banco Master, o Will Bank e agora o Banco Pleno reacendeu no mercado o alerta de que investimentos em Certificados de Depósito Bancário (CDBs), apesar de serem classificados como renda fixa, também têm riscos. O principal deles é o risco de crédito. Ou seja: tomar um calote daquele banco emissor. Por isso, estar atento aos indicadores e à saúde financeira do banco emissor é fundamental. Pensando nisso, o Valor Investe ouviu analistas para mapear quais CDBs de bancos eles sugerem que sejam olhados com um pouco mais de cautela. Dentre os principais alertas, segundo analistas, estão bancos médios com carteiras de crédito mais arriscadas e aqueles com problemas de governança.
Quais são os principais riscos?
A máxima de que quando a esmola é demais o santo desconfia precisa ler levada a sério na hora de investir em CDBs. Portanto, segundo os especialistas, é sempre importante estar atento aos produtos que oferecem um retorno muito maior do que os demais, especialmente em relação àqueles de mesmo porte e perfil. Afinal, isso pode indicar que o banco emissor está com problemas para captar recursos e, no futuro, ele pode ter problemas também para pagar os investidores.
Um outro ponto importante a ser destacado é que ainda que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) funcione como um seguro, o processo de recebimento caso aconteça algo pode ser demorado, cansativo e até mesmo significar perdas financeiras em alguns casos. Um deles é para quem aplicou mais de R$ 250 mil, já que esse é o limite que o investidor recebe de volta. Outro caso é o do investimento demorar muito a ser ressarcido e o valor que o investidor receberia por aquele CDB ficar menor, já que o FGC só corrige os ganhos até a data de liquidação do banco.
É importante destacar, contudo, que os bancos citados pelos analistas não estão, até onde se sabe, em risco de liquidação ou algo parecido. No entanto, algumas características e elementos financeiros apresentados por essas instituições fazem com que elas apresentem menos segurança do que outras, na visão dos analistas ouvidos pela reportagem.
Então, vamos à lista dos "mais arriscados" segundo os quatro analistas das casas de análise Eleven, Suno e Nord Investimentos ouvidos pelo Valor Investe:
Digimais
Um dos bancos citados foi o Digimais. Segundo Gabriel Nakaya, analista de crédito e renda fixa da Nord Investimentos, o banco apresenta algumas questões de governança, incluindo disputas judiciais com fundos de investimento e inconsistências relacionadas ao lastro da carteira de crédito conforme foi apontado em auditorias. Houve, ainda, uma tentativa de venda do banco, mas desistência por parte de compradores, o que também pode ser um motivo de preocupação.
"Ele apresentou uma redução recente da carteira de crédito e recentemente entrou em uma disputa judicial com fundos de investimentos. Só que foram constatados em uma auditoria feita pelo fundo problemas, inconsistências de lastros, na carteira", afirma Nakaya.
Guilherme Almeida, chefe de análise de renda fixa da Suno, também pede cautela com o Digimais. Ele destaca ainda que o banco tem uma estrutura de capital fechado, o que limita o acesso a documentos que seriam importantes de serem analisados para entender a real situação da companhia.
Arbi
Outro banco citado pelos analistas foi o Arbi. Segundo Nakaya, o banco apresentou Índice de Basileia de 10,3%, abaixo do mínimo exigido pelo Banco Central, que é de 10,5%. Além disso, ele vem acumulando prejuízos, tanto em 2024 quanto no primeiro semestre de 2025.
O índice de Basileia mostra o quanto um banco tem de capital próprio para absorver prejuízos caso parte dos empréstimos não seja paga. Portanto, quanto maior esse índice, mais preparado e sólido é o banco para enfrentar crises e perdas sem quebrar, e o Banco Central exige um nível mínimo justamente para proteger o sistema financeiro e os investidores.
"Um outro ponto é que cerca de 95% da carteira está classificada como crédito de maior risco, o que aumenta significativamente a possibilidade de inadimplência futura", afirma Nakaya.
Omni
Outro banco que deve ser visto com um pouco mais de cautela é o Omni, na visão de especialistas. Segundo Almeida, da Suno, ele tem uma estrutura muito enxuta, então precisa remunerar investidores acima da média, o que acaba atraindo investidores. No entanto, o banco teve uma deterioração no índice de eficiência operacional, que mostra o quanto uma instituição gasta para trazer receitas, e vem apresentando alguns prejuízos de exercícios anteriores.
"Então, em histórico de resultados, ele não apresenta atração ou sustentação. É pequeno, então precisa oferecer muito. As taxas são altas e isso traz custos muito elevados para o banco e a liquidez é menor. Ele mantém caixa para compromissos de curtíssimo prazo, mas para prazos mais alongados há dúvida", complementa Almeida.
A Omni, por sua vez, argumenta que mantém uma "estratégia estruturada baseada em disciplina de custos e foco em nichos específicos". A instituição afirma ter reforçado sua estrutura patrimonial com mais de R$ 600 milhões em aportes recentes e apresentar Índice de Basileia de 16%, acima das exigências regulatórias, além de ter concluído a emissão de R$ 500 milhões em Letras Financeiras junto a 21 investidores institucionais, incluindo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
A companhia ressaltou ainda que reduziu cerca de R$ 1 bilhão em captações atreladas ao FGC como parte da estratégia de diversificação das fontes de recursos e registrou patrimônio líquido de R$ 884 milhões e ativos totais de R$ 6 bilhões no primeiro semestre do ano passado e projeta alcançar rentabilidade positiva em 2026.
Luso
Fernando Siqueira, chefe de análise da Eleven, aconselha, primeiramente, evitar os CDBs de bancos médios que não têm liquidez diária, isso é, não permitem resgatar o dinheiro em qualquer dia. Siqueira acha que é melhor ter a possibilidade de desistir quando desejar, à medida que saem notícias sobre a instituição financeira.
Atualmente, o Banco Luso oferece riscos que não vale a pena o investimento, na análise de Siqueira. Na avaliação dele, o Luso é um banco de pequeno porte que opera alavancado, ou seja, usa uma proporção grande de dívidas para financiar as suas operações. A captação do banco depende especialmente dos CDBs oferecidos nas plataformas de investimentos. Além disso, a carteira é concentrada em um número limitado de devedores, especialmente empresas do setor de transporte público. Várias estão em recuperação judicial e aumentando a inadimplência.
O Banco Luso Brasileiro, por sua vez, afirma que encerrou 2025 com índice de Basileia de 16,75%, “nível significativamente superior ao mínimo regulatório de 10,5% exigido pelo Banco Central”, o que, segundo a instituição, mostra a “solidez de capital e adequada estrutura para suportar os riscos inerentes ao seu modelo de negócios”.
Ainda, de acordo com o banco, “o índice de atrasos acima de 90 dias é de 3,7%, o que seria em linha com a média do Sistema Financeiro Nacional (3,2% no segmento pessoa jurídica/recursos livres), mantendo postura prudente de provisionamento de 5,2%, o que representa cobertura de 140% do volume de créditos vencidos”.
O banco ainda afirma que embora o setor de transporte público concentre 70% da carteira, o risco é considerado controlado. "Empresas em recuperação judicial somam apenas 3,4% da carteira total, sendo 90% desses casos concentrados no segmento 'middle', com garantias reais robustas."
Paulista
Já o Banco Paulista não é sugerido pelo chefe da Eleven porque é uma instituição de pequeno porte que sofreu com fraude no câmbio, deflagrada pela Operação Lava Jato em 2020. “Apesar do ajuste de controles e governança e da reestruturação interna, o banco ainda não achou uma linha positiva. Segue com prejuízo acumulado e dívidas muito concentradas em CDBs”, diz. “O acionista majoritário tem feito aportes e emitido investimentos para reforçar a estrutura de capital.”
Por fim, outra recomendação de Siqueira, da Eleven é fugir dos CDBs emitidos por sociedades de crédito, financiamento e investimento (SCFI), popularmente conhecidas como financeiras. Essas instituições são mais arriscadas do que os bancos, porque divulgam menos informações e oferecem operações de crédito de maior risco, como crédito pessoal para o varejo, uma modalidade de empréstimo em que a inadimplência é maior.
“Não vejo por que correr mais risco em financeiras. A chance de o investidor ter problemas é grande”, afirma.
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