Antes de olhar apenas para a taxa de retorno prometida e para a nota de crédito daquele banco, o investidor precisa checar a saúde financeira dele
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A máxima "quando a esmola é demais, o santo desconfia" deve ser levada muito a sério no caso dos CDBs. Portanto, se um banco oferece rentabilidade muito acima da média ou do que instituições de tamanho e perfil parecido oferecem, geralmente o risco também é alto. Por isso, antes de olhar apenas para a taxa prometida, o investidor precisa checar a saúde financeira do banco emissor.
“Um banco que está redondo do ponto de vista financeiro não precisa remunerar acima, porque ele tem fontes diversificadas de captação de recurso”, diz Guilherme Almeida, chefe de análises de renda fixa da Suno. Em geral, períodos de maior incerteza levam investidores a uma “fuga para a qualidade”, onde o dinheiro é retirado de ativos mais arriscados e favorece emissores mais sólidos.
Mas afinal, o que olhar?
- De onde vem o seu dinheiro, banco?
Um dos primeiros pontos a serem avaliados é a capacidade do banco de gerar receitas de crédito recorrentes e consistentes, já que isso indica eficiência dele na concessão de empréstimos e, portanto, sua capacidade de gerar retorno a partir dessa atividade, que costuma ser o principal serviço de um banco.
Caso essa frente não seja tão robusta, outras fontes de receita podem compensar, como serviços de cartões, tarifas bancárias e operações financeiras diversas. Esse equilíbrio ajuda a manter balanços positivos e reduz a dependência excessiva de captação via CDBs no varejo.
Além disso, a composição da carteira de crédito também importa. O chamado índice D-H, que mede a parcela mais arriscada da carteira, indica o nível de exposição do banco a clientes com maior probabilidade de inadimplência: quanto maior esse percentual, maior o risco embutido na receita futura.
- Índice de Basileia e inadimplência
Outro ponto central é a capacidade do banco de absorver perdas, medida pelo índice de Basileia. Na prática, esse indicador mostra o quanto um banco tem de capital próprio para absorver prejuízos caso parte dos empréstimos não seja paga.
Portanto, quanto maior esse índice, mais preparado e sólido é o banco para enfrentar crises e perdas sem quebrar, e o Banco Central exige um nível mínimo justamente para proteger o sistema financeiro e os investidores.
O mínimo exigido pelo Banco Central é de 10,5%, enquanto grandes bancos costumam operar bem acima disso.
Além disso, dados públicos como o IFDATA permitem acompanhar a inadimplência da instituição (ou seja: quanto da carteira de clientes está dando calote nesse banco). Níveis próximos de 3% ou 4% são considerados saudáveis. Acima disso, o risco aumenta, especialmente se a carteira for composta majoritariamente por crédito sem garantia, como os empréstimos pessoais.
- Quem te comanda?
A qualidade da gestão daquela instituição também deve entrar na conta. Afinal, caso os seus principais controladores estejam envolvidos em escândalos isso pode ser um sinal de alerta, inclusive porque pode gerar uma crise reputacional que tende a ter reflexos negativos na instituição, ainda que nada esteja acontecendo com ela.
"Pesquisar notícias recentes, envolvimento em escândalos ou problemas de governança ajuda a evitar surpresas", afirma Almeida, da Suno.
- Está dando lucro? E como é o ROE?
O lucro é um fator importante. Mas não deve ser analisado isoladamente. Sua recorrência tende a indicar a capacidade do banco de atravessar diferentes ciclos econômicos.
“O lucro compõe uma análise, ele não é o único fator determinante, mas é um fator importante. Olhar a parcela de risco. Ver se a carteira de crédito tem aumentado. O retorno sobre o patrimônio (ROE), em um banco que gera lucro, entender o tamanho desse ROE, olhar a Basileia”, afirma Gabriel Nakaya, analista de crédito e renda fixa da Nord.
O ROE mede o quanto uma empresa é capaz de entregar de retorno para cada real investido em sua atividade. Na prática, um ROE acima de 15% significa que o banco entrega um retorno maior do que o investidor teria investindo, por exemplo, em títulos de renda fixa (já que a Selic, que serve de referência para muitos desses ativos, está em 15%).
- E o rating? Não serve para nada?
Já as agências de rating podem servir como ponto de partida, mas não como critério único. Tanto Almeida quanto Nakaya destacam limitações nesses relatórios, que podem ser defasados e dependem de informações reportadas pelas próprias instituições.
“Às vezes ele é triplo A e cai significativamente, ou sobe significativamente dado algum acontecimento, então não é um ponto tão vital”, diz Nakaya.
Almeida, da Suno, destaca que esse é um critério que tem certa fragilidade, uma vez que as agências analisam dados reportados pelas instituições se forem contratadas por elas, o que pode significar um conflito de interesse. E se não houver uma nova contratação depois de um tempo, aquele rating pode não ser "renovado". Portanto, a nota pode refletir dados que já ficaram defasados.
No fim, a recomendação é de tentar conseguir o máximo de informações possíveis sobre aquela instituição, especialmente as que oferecem rentabilidades muito acima da média.
Publicado originalmente em https://valorinveste.globo.com/produtos/renda-fixa/cdb/noticia/2026/02/19/como-escolher-um-cdb-por-que-so-as-taxas-e-o-rating-nao-sao-suficientes.ghtml
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