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No Brasil, investidor se afoga em um mar de regras e produtos

No Brasil, investidor se afoga em um mar de regras e produtos

No Brasil, investidor se afoga em um mar de regras e produtos

Especialistas alertam também sobre os conflitos de interesses na venda de investimentos e indicam cuidados ao escolher os produtos, para não embarcar em ofertas com riscos demais para a carteira ou em falsos investimentos. Eles defendem que a indústria de investimentos no país avance com um modelo de remuneração mais alinhado aos interesses dos investidores e melhore a comunicação com os clientes, para não afastá-los após os sustos.

O volume de investimentos dos brasileiros triplicou na última décadadisparou de R$ 2,5 trilhões em 2016 para R$ 8,3 trilhões em 2025, mostram os dados da Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) até novembro. O número de contas de investimentos saltou também de 69,6 milhões para 190,5 milhões no mesmo intervalo. O número de contas não representa o número de CPFs, porque cada brasileiro pode ter aplicações em mais de um produto ou instituição.

Fonte: Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Dados até novembro, somando varejo e "private". *Nov.

Fonte: Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Dados até novembro de 2025, somando varejo e "private". O número de contas não representa o número de CPFs, porque cada brasileiro pode ter aplicações em mais de um produto ou instituição. *Nov.

Fonte: Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Dados até novembro, somando varejo e "private". *Nov.

Contudo, a complexidade de investir também aumentou. Além de existirem mais opções sofisticadas acessíveis aos brasileiros, muitos nomes de produtos são difíceis, em inglês ou em siglas, e as regras de aplicação, resgate e tributação são diferentes e complexas. E os incentivos recebidos por quem vende os produtos distanciam os brasileiros da alocação ideal para o seu perfil.

Daqui para frente, a tendência é surgirem produtos novos e não há como ser diferente, de acordo com Hudson Bessa, professor de finanças da FGV, Fipecafi, Mackenzie e Saint Paul e sócio da consultoria de investimentos Spot Capital e da companhia de cursos de investimentos HB Escola de Negócios. Ele destaca que as aplicações financeiras são fontes de financiamento para as empresas, que necessitam dos recursos dos investidores emprestados para crescer.

Para Bessa, o maior problema não é o número de produtos sofisticados à disposição dos brasileiros, mas o processo de venda cheio de conflitos de interesses. Normalmente, os produtos que pagam as maiores comissões para os assessores e as corretoras de investimentos venderem são os mais sofisticados e arriscadosAssim, existe um incentivo maior para esses produtos serem vendidos e um incentivo menor para os mais conservadores serem distribuídos.

Entretanto, frequentemente os investimentos mais sofisticados e arriscados não são os indicados para os investidores alcançarem os seus objetivos de vida, ainda mais quando eles não toleram risco demais na carteira.

“O problema não são os produtos sofisticados, é a venda para as pessoas erradas, em momentos de vida e em carteiras em que eles não fazem sentido”, afirma. “Existem conflitos de interesse em qualquer mercado, mas o regulador e as associações de classe devem orientar e punir a distribuição errada de produtos.” Segundo o professor, falta educação para os investidores, mas principalmente para os profissionais do setor que vendem os produtos.

Além das aplicações serem distribuídas em doses que não fazem sentido na carteira dos brasileiros, ainda há os produtos vendidos como investimentos, mas que não são. Recentemente, a história da Fictor assustou os brasileiros.

A empresa vendia Sociedades em Conta de Participação (SCPs) como investimentos que ofereciam retornos altos e pagava taxas altas para os assessores de investimentos venderem esses contratos. Contudo, esses contratos são celebrados entre particulares e não são supervisionados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM, o órgão regulador do mercado de capitais brasileiro). Além disso, não têm a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), como os CDBs do Master.

Desde o fim de 2025, a Fictor atrasa o pagamento às pessoas que aplicaram em seus contratos de SCP. Agora, esses investidores serão os últimos a receber o seu dinheiro após a empresa pedir recuperação judicial.

Enquanto os problemas seguem, o professor dá um conselho para os brasileiros. “Independentemente do número de produtos vendidos, você não precisa querer todos. Não gaste muito tempo com investimentos que não entende e desconfie quando a promessa de retorno é muito alta, diz. Ele indica também checar no site da CVM se quem está oferecendo o investimento é reguladotanto o profissional quanto a plataforma.

Se serve de consolo, o mercado de investimentos é complexo no Brasil e no mundo todo, mesmo em indústrias desenvolvidas como Ásia, Estados Unidos e Europa, na análise de Aquiles Mosca, presidente da gestora de fundos BNP Paribas Asset Management Brasil e diretor da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Contudo, a boa notícia é que as pessoas não precisam ter os produtos mais complexos para os investimentos terem sucesso, na avaliação dele. Atualmente, CDBs de instituições sólidas e títulos públicos do Tesouro Direto já dão bons retornos.

Dá para a carteira ser relativamente simples, sem muitos investimentos, aproveitando os elevados juros. As pessoas não precisam encher a carteira de COEs [Certificados de Operações Estruturadas, conhecidos como investimentos sofisticados] ou de fundos de investimentos com nomes em inglês. A complexidade pode ser usada por quem desejar, mas não é isso que determina a chance de atingir os objetivos”, afirma.

“Tem vários instrumentos para ganhar dinheiro acima da inflação, como títulos indexados à inflaçãofundos DI [que compram somente títulos de risco baixo] e CDBs de instituições sólidas, que permitem atingir diferentes objetivos sem muita complexidade.”

Mosca aconselha que, antes de escolher o produto, a pessoa defina o que deseja fazer com o dinheiro, quando pretende realizar esse objetivo e quanto risco está disposta a correr. Sem fazer isso, não tem como saber qual o melhor produto. Além disso, ele alerta que atingir o máximo possível de retorno não deve ser o objetivo principal do investidor. “Ao fazer isso, é como se a pessoa entrasse na farmácia e perguntasse qual remédio está curando mais. Depende do problema de saúde”, diz.

Conforme Mosca, outra maneira de se blindar da complexidade da indústria de investimentos é contratar uma assessoria de investimentos que trabalhe com uma taxa fixa cobrada do cliente, não com comissões que ganham das plataformas e variam segundo o produto comercializado. “O modelo da taxa fixa evita o conflito de interesse do profissional vender um produto muito complexo apenas para ganhar mais, mas que não é o mais indicado para o cliente”, afirma.

Comunicação deve melhorar

Ana Leoni, presidente da Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar), cita um estudo da psicóloga e economista canadense Sheena Iyengar, que experimentou vender geleias em uma feira nos Estados Unidos nos anos 2000. O estudo mostrou que os estandes com apenas seis opções de sabores venderam dez vezes mais que os estandes com 24 alternativas.

No livro “A arte da escolha”, a pesquisadora escreve que o excesso de opções paralisa as pessoas por medo de errar e aumenta a chance de escolher errado. Já menos opções facilitam a decisão e aumentam a satisfação.

Leoni destaca que especialmente um ponto pode melhorar na indústria de investimentos: a linguagem. “Faltam publicitários no mercado financeiro para descomplicar a abordagem, as explicações e os nomes dos produtos, quase todos em siglas ou em inglês. Eles fazem mais sentido para o setor do que para as pessoas físicas”, afirma. “Existe um espaço grande para simplificação.”

Segundo a presidente da Planejar, outra barreira é a ilusão de que os investidores podem resolver sozinhos a sua vida financeira. Como se bastasse acompanhar um influenciador na rede social ou fazer um curso para entender a fundo a indústria de investimentos.

“As pessoas procuram um médico quando estão com um problema de saúde ou um arquiteto quando desejam fazer uma reforma, mas acham que conseguem investir sozinhas. Na verdade, é preciso ajuda para navegar em um universo tão complexo como o das aplicações financeiras”, diz.

Essa é a diferença do Brasil em comparação aos Estados UnidosEnquanto nos EUA há um planejador financeiro para cada 2 mil americanos, no Brasil existe somente um planejador financeiro para cada 13 mil brasileiros. Os americanos entendem mais a relevância de ter um profissional para ajudar com as decisões financeiras”, acrescenta.

Guilherme Assis, fundador da consolidadora de investimentos Gorila, acha que a indústria de investimentos melhorou para as pessoas físicas com o aumento da competição entre as plataformas e entre os influenciadores de finanças. O avanço foi, principalmente, aumentar o acesso de mais pessoas aos produtos e oferecer mais educação sobre as aplicações aos brasileiros.

Contudo, Assis concorda que alternativas demais dificultam a vida dos investidores e avalia que a perspectiva nesse sentido não é boa: a complexidade da indústria de investimentos tende a aumentar.

“Com bem mais produtos, não fica claro o que os investidores precisam fazer. A complexidade de navegar nesse universo aumentou e isso joga contra o investidor. Toda essa complexidade só vai aumentar, com mais produtos e regulações que às vezes nem os especialistas conhecem bem”, afirma.

Conforme o fundador do Gorila, a tecnologia pode ajudar a simplificar a vida dos investidores. Do lado do mercado, a tecnologia tende a auxiliar a indústria de investimentos a analisar os clientes, e a entregar investimentos que tenham sentido no contexto de cada brasileiro, adequados aos objetivos e aos riscos que as pessoas estão dispostas a correr. Já do lado do investidor, deve dar uma mão para tomar as melhores decisões.

“A tecnologia ajuda a contar as histórias em uma linguagem que os investidores entendam”, diz. “Sair da linguagem da indústria ajuda a abstrair a complexidade dos investimentos.” Fica a dica.

Publicado originalmente em https://valorinveste.globo.com/objetivo/hora-de-investir/noticia/2026/02/09/no-brasil-investidor-se-afoga-em-um-mar-de-regras-e-produtos.ghtml

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