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Previdência privada: Renda+ perde para o VGBL, mas tem uma arma escondida

Planos de previdência e título de aposentadoria do Tesouro são animais bem diferentes. Entenda os pontos fortes de cada um



Existem duas formas simples de planejar a aposentadoria: contratar um plano de previdência privada ou usar um título público específico para isso, o Tesouro Renda+, uma opção recente, que surgiu em 2023.

Apesar desse ponto em comum, eles são animais bem diferentes. Cada um serve para um perfil específico – e vamos comparar os dois aqui.

Os planos de previdência privada, vale lembrar, têm aquelas duas modalidades: PGBL e VGBL. Esta última é a mais popular, de longe. Para simplificar a comparação com o Renda+, então, focamos aqui no VGBL.

Mãos à obra. Vamos pegar como ponto de partida um aporte mensal de R$ 1 mil. Ao longo de 24 anos, isso significa 288 depósitos, ou seja, R$ 288 mil no total.

Por que 24 anos? Porque no Renda+ você é obrigado a escolher um ano específico para o fim do período de acumulação, sempre em anos meio redondos: 2030, 2035… Escolhemos, então, o Tesouro Renda+ 2050, que começa a pagar daqui a um quarto de século.

Para o VGBL, colocamos uma taxa de 1% de administração porque é um percentual razoável para boa parte dos planos hoje mais comuns.

Temos, então, um cenário com depósitos de R$ 1 mil por mês no Renda+ e no VGBL. Fazendo as aplicações dessa forma, é impossível saber qual será exatamente o valor da renda complementar que você vai tirar lá na frente. Mas dá para fazer uma aproximação realista.

A solução aí foi estimar um rendimento médio de 4% ao ano acima da inflação (IPCA+4%). Essa é uma meta comum entre fundos de previdência, e se trata de um rendimento médio factível para o Renda+ também.

Resultado: o VGBL vence. Os aportes de R$ 1 mil por mês no Renda+, pagando IPCA+4%, vão render R$ 1,87 mil por mês ao longo de 240 meses (20 anos). Em dinheiro de hoje, note bem. O valor nominal será outro, bem maior, porque ele vai vir corrigido pela inflação dos próximos 24 anos. Mas não importa. O ponto é que a quantia terá o poder de compra que R$ 1,87 mil têm agora.

Pois bem. Os mesmos aportes, num VGBL que garanta o mesmo rendimento, vão pagar os mesmos R$ 1,87 mil, mas por um período razoavelmente maior: 297 meses (24 anos e 9 meses). Quase cinco anos a mais de rendimento na comparação com o Renda+.

Em outra leitura: no VGBL, daria para tirar R$ 2,2 mil por mês ao longo 20 anos, se igualarmos os períodos – são 17% a mais por mês do que no título do Tesouro dedicado à aposentadoria.

Como acontece a mágica do VGBL

Hora de explicar o que aconteceu. No Tesouro Renda+, o investimento tem duas fases bem definidas. Primeiro, a de acumulação, que termina no vencimento do papel. Depois, vem a fase de recebimento: o patrimônio é convertido em 20 anos de pagamentos mensais – 240 parcelas.

Cada uma delas é corrigida pelo IPCA. Ótimo, preserva seu poder de compra. Mas o juro real, acima da inflação, deixa de operar: o dinheiro passa a ser devolvido mês a mês, com imposto retido a cada pagamento. Acabou a acumulação, começa o consumo. Não tem como mudar isso.

No VGBL, a lógica é outra. Quando você começa as retiradas mensais, o resto do dinheiro continua rendendo – pela nossa simulação, o equivalente a IPCA+4%.

Ou seja: o dinheiro segue crescendo. E só vai acabar tudo, pela nossa simulação, depois de 24 anos e 9 meses. E se você quiser tirar por 20 anos, poderá sacar parcelas maiores: R$ 2,2 mil, contra R$ 1,87 mil do Renda+.

O Renda+ é um mau investimento, então? De forma alguma. A fórmula dele é ótima, mas para um tipo diferente de investidor.

A vantagem oculta do Renda+

Para tirar o que o Renda+ tem de melhor, não adianta colocar um tantinho por mês. O próprio site do Tesouro indica esse caminho, mas, definitivamente, não é a melhor forma.

A graça do IPCA+ é que ele dá a possibilidade de travar juros do presente para o futuro. E os juros do presente mudam de tempos em tempos. Às vezes, estão particularmente altos, como agora. Às vezes, baixinhos.

Então, a lógica é fazer os aportes não mês a mês, mas só quando os juros estiverem fora da curva. Para isso, porém, é preciso que você tenha uma bela reserva de prontidão, de modo que possa ligar a bazuca nos melhores momentos.

Hoje é um desses grandes momentos. Em meados de fevereiro, o Renda+ 2050 estava pagando IPCA+6,88%. Muito mais do que colocamos na nossa simulação. Esse juro não vai durar para sempre. Deve cair conforme os eventuais cortes na Selic forem se consolidando, nos próximos anos.

Mas vamos dizer que você tenha na mão, para investir já, o montante que usamos na nossa simulação, R$ 288 mil. Deixando isso no IPCA+2050 e esquecendo lá pelo próximo quarto de século, você receberia R$ 10,5 mil por mês ao longo de 20 anos – extraordinariamente mais do que os R$ 1,87 mil da simulação original, sob IPCA+4%.

Mas vamos para uma situação menos incomum. A de que você não tenha a intenção de colocar R$ 288 mil de uma vez, mas ache ok fazer aportes maiores tentando fazer um bom “juro médio”.

É impossível acertar um timing perfeito. Mas vamos dizer que você decida colocar R$ 36 mil a cada três anos, tentando pescar momentos de juro alto. Ao longo de 24 anos, vai dar os mesmos R$ 288 mil.

E vamos dizer também que, no fim, cada um dos seus aportes foi em momentos em que o Renda+ estava pagando IPCA+5,5% – menos do que agora, só que mais do que a estimativa conservadora, de 4%.

Pois bem. Nesse cenário, você consegue R$ 2,6 mil por mês durante 20 anos. Bem mais do que os R$ 2,2 mil lá do VGBL.

No final, não dá para dizer que um produto de investimento “ganha” do outro de forma absoluta. O VGBL é melhor para quem aplica uma quantia relativamente menor todo mês. O Renda+, para quem tem o dinheiro e a disciplina necessários para fazer com que os juros altos trabalhem a seu favor.

Publicado originalmente em https://investnews.com.br/investimentos/previdencia-privada-renda-mais/amp/

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