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5 razões pelas quais as pessoas se arrependem de se aposentar cedo, segundo especialista

Planejador financeiro afirma que pontos cegos sobre longevidade, inflação, impostos e até impacto emocional explicam por que parte dos aposentados volta atrás na decisão

Especialista financeiro revela 6 motivos principais pelos quais as pessoas se arrependem de se aposentar cedo
Especialista financeiro revela 6 motivos principais pelos quais as pessoas se arrependem de se aposentar cedo — Foto: GettyImages

A aposentadoria é vista por muitos como a linha de chegada depois de décadas de trabalho. Ainda assim, para parte dos profissionais que optam por sair antes do tempo, o sonho pode se transformar em frustração.

Em entrevista ao site da revista Newsweek, o consultor de planejamento financeiro Asad Khan, baseado em Pinner, na Inglaterra, afirmou que o arrependimento costuma estar ligado a fatores financeiros subestimados. “Embora a aposentadoria antecipada possa parecer atraente, muitos aposentados descobrem mais tarde que certas realidades financeiras foram negligenciadas”, diz. Segundo ele, alguns problemas só aparecem depois que a pessoa deixa o mercado de trabalho, “levando a desafios inesperados”.

A seguir, os cinco principais pontos destacados por Khan.

1. Risco de longevidade

Relatório de 2024 da Bloomberg American Health Initiative, da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, aponta que a expectativa de vida nos Estados Unidos é de 78,6 anos, em média. Viver mais é positivo — desde que o dinheiro acompanhe.

“Aposentar-se aos 50 ou 60 anos pode significar financiar uma aposentadoria que dure de 30 a 40 anos”, afirma. “Muitos subestimam sua expectativa de vida, o que aumenta o risco de esgotar suas economias antes do fim da vida.”

2. Inflação e aumento do custo de vida

Mesmo com desaceleração inflacionária, preços raramente retornam ao patamar anterior. Dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA indicam que os custos permanecem cerca de 2,4% mais altos do que há um ano. Moradia, alimentação e serviços — como saúde, cuidados pessoais, lazer e comunicação — continuam pressionando o orçamento.

“A inflação corrói gradualmente o poder de compra”, diz Khan. “Ao longo de décadas, mesmo aumentos anuais modestos no custo de vida podem impactar significativamente a renda fixa da aposentadoria, principalmente nos últimos anos.”

3. Saques antecipados e ritmo de gastos

Outro ponto sensível envolve o acesso antecipado a fundos de pensão ou previdência. “Acessar os fundos de pensão muito cedo ou sacar grandes quantias sem um plano estruturado pode levar ao esgotamento prematuro das economias para a aposentadoria e a consequências fiscais indesejadas”, explica.

Sem estratégia clara, recursos projetados para durar décadas podem acabar antes do previsto.

4. Pico de gastos nos primeiros anos

Segundo Khan, os primeiros anos da aposentadoria costumam concentrar despesas maiores, impulsionadas por viagens, hobbies e mudanças no estilo de vida. “A fase inicial da aposentadoria geralmente envolve um aumento nos gastos discricionários”, afirma. “Sem uma estratégia financeira de longo prazo, isso pode resultar em dificuldades financeiras durante os estágios posteriores da aposentadoria.”

5. Ajustes emocionais e de estilo de vida

Por fim, o especialista ressalta que o impacto não é apenas financeiro. “A transição psicológica para a aposentadoria é frequentemente subestimada”, afirma. “A perda da rotina, da identidade e da interação social pode influenciar o comportamento de consumo e o bem-estar geral, levando, por vezes, a decisões financeiras não planejadas.”

Para muitos profissionais, o trabalho oferece estrutura diária e senso de propósito. Sem essa referência, parte dos aposentados enfrenta dificuldades de adaptação.

Aposentadoria no Brasil: renda menor e volta ao trabalho

O cenário descrito por Khan encontra paralelos no Brasil. Levantamentos recentes da Serasa, realizados em parceria com o Instituto Opinion Box, indicam que a transição para a aposentadoria também tem sido acompanhada por desafios financeiros no país.

Em janeiro de 2024, a pesquisa ouviu 2.841 pessoas e apontou que 6 em cada 10 entrevistados não conseguem manter o padrão de vida que tinham antes da aposentadoria. Além disso, 62% afirmaram ter recorrido a crédito ou empréstimo para auxiliar nas despesas. O levantamento também mostrou que 60% continuam trabalhando após se aposentar, seja para complementar a renda, seja para manter um estilo de vida ativo. Ainda segundo os dados, 4 em cada 10 aposentados enfrentam dificuldades para manter as contas essenciais em dia, com destaque para gastos com alimentação, supermercado, saúde e medicamentos.

Apesar do quadro financeiro, a pesquisa registrou percepções positivas: 29% disseram se sentir felizes, 27% independentes e 22% aliviados por terem alcançado essa fase da vida. Entre os principais desejos estão quitar dívidas (44%), viajar (33%), aproveitar o tempo livre (30%) e ajudar familiares (24%).

Um segundo levantamento, realizado em janeiro de 2025 com 1.052 brasileiros aposentados ou prestes a se aposentar, reforça o diagnóstico. Segundo a Serasa, 64% dos que já recebem o benefício consideram o valor aquém do necessário e apontam queda no padrão de vida. A falta de planejamento aparece como um dos fatores: 37% dos aposentados admitem que não se prepararam financeiramente para esse momento. Entre os que devem se aposentar em até dois anos, 23% dizem que não estão se planejando e 41% afirmam que se organizam apenas parcialmente.

O estudo mostra ainda que 6 em cada 10 pessoas prestes a se aposentar só começaram a se organizar financeiramente nos últimos cinco anos, enquanto 70% passaram a complementar o salário com outra fonte de renda no mesmo período. Entre os aposentados, 37% relatam dificuldade para manter as contas essenciais em dia. Por isso, 53% seguem trabalhando para complementar a renda e 43% dizem permanecer ativos para manter um estilo de vida ativo.

Os dados também indicam preocupação persistente com a estabilidade financeira: 48% relatam sensação de instabilidade, 45% veem maior risco de endividamento e 49% têm receio de precisar de ajuda. Assim como no levantamento anterior, 6 em cada 10 aposentados afirmam já ter buscado crédito ou empréstimo para cobrir despesas essenciais, principalmente alimentação, supermercado, saúde e remédios.

Na prática, os números brasileiros dialogam com os alertas feitos por Khan à Newsweek: viver mais, lidar com inflação e mudanças de rotina exige planejamento de longo prazo. Sem isso, a aposentadoria — precoce ou não — pode trazer desafios que vão além do fim da vida profissional.

Publicado originalmente em https://revistapegn.globo.com/gestao-de-pessoas/noticia/2026/03/5-razoes-pelas-quais-as-pessoas-se-arrependem-de-se-aposentar-cedo-segundo-especialista.ghtml

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