Pular para o conteúdo principal

Barril em disparada: onde estão as oportunidades de investimentos no petróleo


A alta recente do petróleo recolocou a commodity no radar do investidor. Com o Brent a US$ 93,04 por barril nesta sexta-feira (6), em meio à escalada das tensões no Oriente Médio, cresce também a busca por formas de capturar esse movimento na carteira.

Mas se expor ao petróleo está longe de ser uma decisão simples. Há diferentes caminhos para isso, e eles não entregam a mesma coisa. Em alguns casos, o investidor fica mais próximo da oscilação do barril. Em outros, compra empresas que podem se beneficiar da alta, mas que também carregam riscos operacionais, políticos e de execução.

Para Adriana Ricci, fundadora e CEO da SHS Investimentos, a exposição ao setor pode fazer sentido em momentos de estresse geopolítico, quando o mercado passa a embutir um prêmio de risco no preço da commodity. “Investir em petróleo pode fazer sentido como forma de diversificação e/ou proteção de portfólio”, afirma.

Ao mesmo tempo, Adriana pondera que não se trata de uma aposta trivial. Segundo ela, “o petróleo é um ativo muito cíclico e altamente sensível a eventos políticos e econômicos”, o que significa que movimentos fortes de alta também podem ser seguidos por correções relevantes. Por isso, afirma, a decisão deve passar menos pela tentativa de acertar o timing e mais pela avaliação de estratégia, perfil de risco e diversificação da carteira.

Na mesma linha, o economista da Valorum Investimentos Vilson Marcelo Rauch vê a disparada recente com cautela. Para ele, o movimento tem cara de prêmio geopolítico, e não necessariamente de nova tendência estrutural de alta. “A alta recente é real, mas parece mais um pico de risco do que tendência sustentada”, diz. Na avaliação do economista, um eventual acordo entre EUA e Irã pode provocar uma reversão rápida dos preços. “Quem entra agora pode estar comprando no topo de um repique geopolítico.”

Ainda assim, para quem quer ter alguma exposição ao tema, existem alternativas.

ETFs no exterior

Para quem tem conta internacional, os ETFs são um dos caminhos mais diretos para se posicionar em petróleo sem comprar o ativo físico.

Entre as opções mais conhecidas estão o USO, ligado ao desempenho do WTI, referência do petróleo nos Estados Unidos, e o BNO, que acompanha o Brent, principal referência global para o barril.

Rauch destaca esses dois veículos como alternativas com maior liquidez para o investidor que opera fora do Brasil. Mas faz uma ressalva importante: nos dois casos, a exposição ocorre via contratos futuros, não por compra de petróleo físico. Isso significa que o retorno do ETF pode não acompanhar exatamente o comportamento do barril à vista, já que a rolagem desses contratos tem custo e pode afetar o desempenho final.

BDRs e ETFs na bolsa

Para quem prefere permanecer no mercado brasileiro, há BDRs de ETFs ligados ao setor de energia e petróleo.

Entre eles estão o BIYE39, atrelado a um índice de empresas americanas de óleo e gás, e o BIEO39, mais concentrado em companhias de exploração e produção. Há ainda o BCOM39, que não é um veículo exclusivo de petróleo, mas de uma cesta mais ampla de commodities, incluindo energia, metais e grãos.

A vantagem desses ativos é permitir acesso ao tema sem a necessidade de abrir conta fora do país. A desvantagem, segundo Rauch, é a liquidez reduzida. Na visão dele, esse é um ponto que precisa entrar na conta do investidor antes de qualquer decisão, porque pode dificultar a compra e a venda rápida dos papéis.

Empresas estrangeiras

Outra possibilidade é investir diretamente em petrolíferas estrangeiras, seja por ações no exterior, seja por BDRs negociados na bolsa.

Entre os nomes mais conhecidos estão ConocoPhillips, Chevron e ExxonMobil. Mas, de novo, não se trata da mesma exposição.

Rauch observa que a ConocoPhillips é mais concentrada em exploração e produção, o que a torna mais sensível ao preço do barril. Já Chevron e Exxon têm uma atuação mais integrada, com refino, distribuição e petroquímica, o que tende a amortecer parte do efeito da oscilação da commodity sobre os resultados.

Isso significa que comprar ações de petrolíferas não é o mesmo que comprar petróleo. O investidor passa a depender também do modelo de negócio de cada companhia.

Ações também podem ser uma opção

No Brasil, a porta de entrada mais óbvia continua sendo a Petrobras. Mas, na avaliação das fontes ouvidas, ela está longe de ser uma aposta “pura” em petróleo.

Filipe Ferreira, professor do Insper e sócio da CTW Consultoria, chama atenção justamente para esse ponto. “Quando você se expõe através da compra de empresas do setor, você tem essas nuances de cada característica de cada empresa no setor”, afirma.

É por isso, segundo ele, que nem toda companhia ligada à cadeia de petróleo reage da mesma forma à alta do barril. Filipe cita o caso de distribuidoras como exemplo de negócio que pode até sofrer pressão sobre margens em um cenário de energia mais cara. No caso da Petrobras, a leitura também exige mais cuidado. Ele afirma que a companhia é verticalizada, tem presença relevante em refino e ainda carrega o componente estatal, o que adiciona dúvidas sobre repasse de preços e impacto político sobre a operação.

Por isso, explica Filipe, alguns investidores preferem buscar exposição ao tema por meio de empresas independentes. “Muitos investidores usam para ficar posicionados em petróleo, mas sem se posicionar em Petrobras por conta da exposição ao governo, se posicionam, por exemplo, em Prio”, diz.

Na visão de Hugo Queiroz, sócio da L4 Capital, o petróleo mais alto tende a melhorar os fundamentos de praticamente todas as produtoras listadas. “Todas elas vão ter crescimento de receita por conta dessa variação muito forte. Incremento de rentabilidade e margem. E aumento da geração de caixa”, afirma.

Mas Hugo também separa as teses por perfil. Para ele, Prio (PRIO3) e Brava Energia (BRAV3) são as ações mais ligadas a crescimento, por combinarem barril mais alto com expansão de produção. Já Petrobras e PetroReconcavo (RECV3) aparecem mais como teses de valor e dividendos, sustentadas por geração de caixa robusta e potencial de distribuição ao acionista.

Ele ainda menciona a Azevedo & Travassos Energia (AZEV4) como uma tese mais especulativa. Pode ter upside elevado se conseguir executar aquisições e elevar produção, mas também carrega mais risco de execução e estrutura de capital.

Futuros são a forma mais direta, mas também mais arriscada

Se a ideia for buscar a exposição mais direta possível ao barril, os contratos futuros continuam sendo o instrumento mais tradicional.

É por esse caminho que o investidor consegue se posicionar na oscilação da commodity sem comprar petróleo físico. O problema é que esse mercado embute alavancagem, exige gestão ativa e pode amplificar perdas em movimentos de reversão.

Filipe Ferreira lembra que, no mercado futuro, o investidor “vai ficar exposto à oscilação sem de fato ter que comprar esse ativo”. Isso pode ser vantajoso por exigir menos capital de largada, mas aumenta o risco em caso de reversão brusca.

Já Rauch ressalta que esse tipo de instrumento envolve também rolagem de vencimentos e risco de margin call, o que o torna mais adequado a investidores experientes.

Adriana Ricci vai na mesma direção ao dizer que contratos futuros são uma alternativa voltada a investidores mais sofisticados, com maior tolerância ao risco e familiaridade com operações de alta volatilidade.

O petróleo pode fazer sentido, mas não para todo mundo

A conclusão das fontes ouvidas é que a alta recente do petróleo, por si só, não é convite automático para correr atrás da commodity.

A exposição pode fazer sentido como diversificação, proteção contra choques geopolíticos ou até como aposta tática em empresas do setor. Mas o melhor caminho depende menos do entusiasmo com o barril e mais do que o investidor quer capturar: preço da commodity, geração de caixa das produtoras, dividendos ou uma tese mais ampla de energia.

Adriana resume esse ponto ao dizer que a exposição ao petróleo tende a fazer mais sentido como parte de uma estratégia de diversificação, e não como aposta concentrada em um único ativo.

Publicado originalmente https://timesbrasil.com.br/investimentos/barril-em-disparada-onde-estao-as-oportunidades-de-investimentos-no-petroleo/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Veja 5 tendências da previdência privada que devem ganhar força em 2026

Veja 5 tendências da previdência privada que devem ganhar força em 2026 O mercado de previdência privada aberta desacelerou em 2025, impactado principalmente pela cobrança de 5% de IOF em aportes acima de R$ 300 mil por seguradora nos planos do tipo VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre) a partir da metade do ano. Segundo a Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), que representa as empresas que operam no ramo, como resultado, de janeiro a novembro de 2025 o setor arrecadou 142 bilhões – queda de 19,6% em relação a 2024, ou seja, R$ 36,5 bilhões a menos. Enquanto os aportes diminuíram, os resgates (dinheiro sacado pelos participantes) subiram 13,9%, para R$ 140 bilhões. Por outro lado, regras mais rígidas, expectativa de benefícios menores e um ambiente econômico que exige mais organização torna mais difícil para quem deseja uma aposentadoria confortável contar apenas com o INSS. Nesse cenário, a previdência privada ainda segue como uma das alternativas mais seg...

Planejamento financeiro ajuda a evitar dívidas no início do ano

Banco de imagem Para evitar gastos descontrolados, organizar as despesas pode ser a melhor alternativa Despesas acumuladas de dezembro, impostos como Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) e Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), material escolar e contas de energia mais altas costumam apertar o orçamento das famílias no início do ano. Para enfrentar esse cenário e evitar o endividamento, os especialistas em educação financeira da Viacredi orientam que o planejamento é o principal aliado. A primeira orientação é simples e pode salvar o orçamento: anotar todas as despesas. De acordo com César Rozanski, coordenador de Crédito da Viacredi, esse é um dos primeiros exercícios da educação financeira: criar consciência sobre os próprios gastos. Por isso, o mapeamento detalhado dos gastos ajuda a visualizar compromissos financeiros, entender para onde o dinheiro está indo e definir prioridades de pagamento. “Com as contas devidamente anotadas, é po...

Não é só CDB: veja lista de todos os investimentos protegidos pelo FGC

  As liquidações extrajudiciais de diferentes empresas financeiras em decorrência de investigações da Polícia Federal levaram milhares de investidores  a buscarem nas últimas semanas a segurança do Fundo Garantidor de Crédito  (FGC), que funciona como uma espécie de seguro para investimentos de renda fixa. Apesar de grande parte das aplicações reembolsadas serem CDBs (Certificados de Depósitos Bancários),  o FGC protege  também LCIs (Letras de Créditos Imobiliários), LCAs (Letras de Créditos do Agronegócio), Letras de Câmbio e RDBs (Recibo de Depósito Bancário). Também ficam assegurados os valores em conta salário, corrente e poupança. No entanto, o fundo não protege todos os investimentos de renda fixa.  Ficam de fora  CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), debêntures e fundos de investimentos. Também  não há cobertura  para os títulos públicos do Tesouro Direto, que no entanto conta...