Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue
13 mar 2026
Como economista, analista e estrategista de investimentos com foco no mercado americano, observo o crédito privado como uma das classes de ativos mais dinâmicas e relevantes dos últimos 15 anos. Uma realidade americana, mas que se torna mais popular e consequentemente global nos últimos anos.
Mas, da mesma forma que se populariza, crescem os receios e rumores que se propagam no desconhecimento popular acerca do tema e da classe de ativos. Obviamente que riscos são uma constante quando o assunto é investimentos, e essa classe de ativos não sai incólume nisso. Mas Warren Buffett nos ensina que risco é não saber o que se está fazendo com nosso dinheiro. Por isso, é fundamental entendermos o que é o investimento em crédito privado para daí sim entender o momento atual da classe, seus rumores, os exageros e fundamentos da classe.
Então esse artigo se propõe a apresentar uma análise estruturada e equilibrada sobre o tema, com base em dados recentes de mercado.
Parte 1: Conceito, Evolução e Papel Alocacional
O que chamamos de crédito privado (private credit nos EUA) nada mais é do que uma operação de empréstimo concedida diretamente por gestores institucionais não bancários – como Blackstone, Ares, Apollo e KKR, entre outras – a empresas de médio porte (middle-market), geralmente sem a intermediação de bancos comerciais. Algo parecido com o que temos no Brasil como os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC’s).
Esse é o conceito básico, mas obviamente que existem variações, nuances e sofisticações. Em geral, predominam as estruturas de direct lending (empréstimo direto às empresas), com títulos senior secured (ou seja, títulos que têm preferência no recebimento em casos de default), taxas flutuantes (normalmente a Secured Overnight Financing Rate – SOFR mais um spread) e prazos médios de 3 a 7 anos. A grande diferença para os créditos que são negociados em mercados abertos reside em : (i) na menor liquidez dos títulos, afinal eles não são negociados em mercados públicos como bolsa de valores; (ii) maior customização das regras de pagamento e segurança dos empréstimos (covenants).
Olhando para sua evolução, vemos que esse é um mercado que se desenvolveu muito nos últimos anos. Em 2010, o volume de empréstimos corporativos privados era de aproximadamente US$ 310 bilhões. Em 2024/2025, atingiu cerca de US$ 1,7 trilhão em AUM e, segundo projeções da Moody’s, deve ultrapassar a marca de US$ 2 trilhões ainda em 2026, impulsionado por M&A acelerado, Leveraged Buyout (LBO) e demanda por financiamentos lastreados em ativos reais ou financeiros (asset-based financing).
O que explica esse crescimento?
Ele foi impulsionado por 3 fatores principais: (i) regulamentação pós-2008, que reduziu a capacidade dos bancos de emprestar para segmentos chamados de middle-market; (ii) ambiente de juros baixos até 2021 e, posteriormente, taxas flutuantes que protegeram os rendimentos em 2022-2024; e (iii) busca por yield e diversificação por parte de investidores institucionais em um contexto de compressão de spreads nos mercados públicos.
Na alocação de carteiras, o crédito privado foi visto pelo mercado como uma alternativa interessante e estratégica: oferece prêmios de iliquidez, ou seja, os títulos que compões as carteiras dos fundos que investem nesse tipo de modalidade oferecem tipicamente uma taxa (um yield) maior que outros investimentos em instrumentos de crédito semelhantes (normalmente 200 a 400 bps acima de empréstimos equivalentes), baixa correlação com o mercado de renda variável e/ou de bonds públicos, proteção contra inflação via taxas flutuantes e yields atrativos (historicamente 8-11% em portfólios maduros).
Após ganhar espaço entre investidores institucionais, o acesso via business development company (BDC’s) públicas e fundos destinados ao investidor de varejo democratizou a classe, permitindo exposição sem os tradicionais lock-ups de 7-10 anos.
Parte 2: Tempestade perfeita, rumores e riscos sendo ressaltados
Mas nem tudo são flores, e desde meados de 2025 rumores de “bolha” ganharam tração, especialmente após algumas empresas terem dificuldades de honrar suas dívidas e decretarem recuperação judicial (defaults) no setor automotivo, casos da First Brands e Tricolor. A luz amarela de alerta foi ligada e vimos uma elevação dos receios com a classe. Comentários de Jamie Dimon, presidente do JP Morgan acerca das “baratas” escondidas nesse mercado, ou ainda de Jeffrey Gundlach (“próxima grande crise”) amplificaram o debate e trouxeram de volta o medo dos fantasmas de 2008.
Esses rumores foram alimentados por: (i) crescimento acelerado e competição entre gestores, que levou ao aumento da emissão e oferta desse tipo de fundos, em especial aqueles com estruturas de covenant-lite, estruturas de garantias mais frouxas (21% dos deals em 2025, ante 4% em 2023); (ii) concentração setorial em empresas de tecnologia, em especial de software (chegando a até 40% em alguns portfólios); (iii) opacidade do mercado e iliquidez; e (iv) notícias de resgates antecipados em veículos que não são negociados em mercados públicos e quedas nas ações de gestores que operam na classe.
Esses riscos não são infundados, eles nascem de temores reais: a rápida expansão comprimiu spreads e afrouxou as regulamentações e garantias desses créditos, elevando o potencial de loss-given-default. Se os riscos e receios são verdadeiros, também é verdade que não houve uma efetiva deterioração drástica do cenário para o segmento. As taxas de Default do private credit encerraram outubro/2025 em 5,2%, acima dos títulos considerados high-yield, mas ainda controlados e em trajetória de declínio projetada para abaixo de 3% até o fim de 2026.
Mas o que tem preocupado os investidores é a potencial vulnerabilidade em cenários de recessão ou choques macroeconômicos. Nesse sentido, podemos elencar os 4 principais riscos olhando à frente:
- Impacto acelerado da IA e seu potencial disruptivo para o modelo de negócios das empresas de software;
- Cortes de juros pressionando yields;
- Maturity wall em alguns veículos – o grande volume de vencimentos de dívidas no curto prazo em alguns veículos;
- Possível contaminação via co-lending com bancos.
Como reflexo desses riscos, a pressão sobre o segmento se intensificou com um aumento de pedidos de saques desses fundos com a consequente limitações/cancelamentos parciais de resgates em fundos de private credit semilíquidos. Grandes gestoras como BlackRock, Cliffwater, Blue Owl, Morgan Stanley tiveram que acionar os limites (gates) ou restrições de saques, em meio a um aumento nos pedidos de resgates. Reforçando esse sentimento negativo com a classe, as ações das empresas mais concentradas no segmento – Ares (ARES), Blackstone (BX), Apollo (APO), KKR (KKR) e Blue Owl (OWL) – registraram quedas expressivas nos últimos meses, o que só retroalimentou o sentimento de aversão a risco com a classe.
Parte 3: Contrapontos daqueles que defendem uma visão positiva
Desse jogo de percepções diferentes acerca de um determinado ativo, nasce aquilo que chamamos de “Mercado”. Essa “instituição” chamada Mercado é um lugar formado por agentes que vendem e outros que compram. Se, por um lado, há a crítica, rumor, receios e pedidos de resgates, por outro, também existe os contrapontos importantes que devemos observar.
O primeiro e principal se refere aos eventos mais recentes de limitação de resgates nos fundos. Ora, esse é um mecanismo comum e tradicional nos fundos semilíquidos. A medida visa evitar vendas forçadas de ativos em momento de estresse de mercado e preservar retornos ajustados ao risco no longo prazo. Então, a limitação a saque não foi algo inesperado, mas sim normal e dentro das regras dos fundos e com o objetivo de proteger aos cotistas. Então, ao invés de risco, tal componente deveria ser encarado como algo positivo e que ajuda a manter a sustentabilidade de tais fundos.
Segundo, os principais gestores que investem em crédito privado têm respondido de forma presente e audível aos receios. Executivos da Blackstone, Apollo, Ares e Blue Owl classificaram parte da narrativa como desinformação ou falta de compreensão mais completa do produto.
Eles destacam, por exemplo, que os fundos privados que investem em crédito privado operam com alavancagem 10 vezes menor que bancos tradicionais, o que reduz o risco sistêmico. Eles mostram que alguns dados reforçam a saúde da classe.
O BCRED (o maior fundo de crédito privado do mundo, da gestora Blackstone), por exemplo, possui um portfólio no qual: (i) cerca de 96% dos empréstimos são sênior secured (ou seja, com garantias reais e com preferência de recebimento do principal versus outras dívidas), o que tende a oferecer uma maior segurança ao investidor; (ii) o LTV médio do fundo é de 45% – isso significa que os empréstimos representam menos da metade do valor dos bens dados em garantia, deixando uma boa margem de segurança; (iii) a taxa de empréstimos problemáticos é baixíssima, apenas 0,4%.
Tais características, ainda que com nuances para cada veículo, parecem existir ou se assemelhar entre os principais fundos da indústria. Grande parte do mercado segue apresentando comportamento saudável com defaults em trajetória de queda, cobertura de juros em alta, ou seja, que as empresas que compõe seus portfolios, tem demonstrado capacidade operacional de honrar com seus compromissos. Sendo assim, os riscos parecem mais ancorados em rumores pontuais e em setores específicos do que em fragilidade sistêmica.
Outro contraponto dos gestores é o de que grande parte dos fundos vem apresentando retornos consistentes e que se mostraram maiores do que high-yield bonds ou títulos investment-grade. Não obstante, mesmo em meio a desconfiança e riscos, o crédito privado seguiu oferendo benefícios de diversificação, ou seja, baixa correlação histórica com ações e bonds.
Não obstante, os novos veículos criados pela classe nos últimos anos permitem que investidores de varejo captem yields elevados e exposição a middle-market americano sem os lock-ups tradicionais – uma vantagem competitiva clara em relação a fundos fechados exclusivos para institucionais.
Parte 4: Conclusão
O crédito privado apresenta tanto pontos positivos robustos – yields atrativos, diversificação, crescimento estrutural impulsionado por substituição bancária e track record de resiliência – quanto riscos reais, principalmente iliquidez, opacidade, potencial de perda em downturn setorial (software/IA) e pressão em spreads em ambiente de juros mais baixos.
Em conclusão, apesar dos receios, não parece haver uma “bolha” sistêmica, e as principais gestoras demonstram solidez: balanços equilibrados, equipes experientes, histórico de baixas perdas em créditos e capacidade de selecionar deals em um mercado mais competitivo.
Por fim, vale a ressalva que, como classe de ativos, o Crédito Privado configura um investimento destinado a um perfil de investidor específico que busque diversificação por meio de classes de investimentos alternativas e que está disposto a abrir mão de uma liquidez imediata. Esse é um ponto fundamental: o investimento nessa classe deve ser aderente ao perfil de risco, mas também de necessidade de liquidez, dado que estamos falando de ativos semilíquidos. É importante que o investidor entenda tanto os riscos e limitações, mas também o potencial dessa classe, dentro de uma alocação sistêmica, estrutural e disciplinada, que permita capturar o prêmio da classe sem comprometer a estabilidade geral do portfólio.
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Publicado originalmente em https://connection.avenue.us/analises/insights-avenue/credito-privado/

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