Em apenas uma década, o rombo do sistema cresceu mais de 62%
O avanço persistente do déficit previdenciário no Brasil tornou impossível ignorar a necessidade de uma nova reforma estrutural. Em apenas uma década, o rombo do sistema cresceu mais de 62% — já descontada a inflação — e atingiu R$ 442,008 bilhões em 2025. Em termos relativos, o peso sobre a economia também aumentou: passou de 2,64% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 para 3,42% em 2025. Esses números foram calculados pelo Tesouro Nacional a pedido do jornal Valor e mostram que, mesmo com o impacto positivo da reforma previdenciária de 2019 — que evitou um avanço ainda mais agressivo do déficit —, o problema continua se agravando. No período analisado, mais de R$ 170 bilhões foram incorporados ao buraco das contas previdenciárias, reforçando uma conclusão já amplamente reconhecida: uma nova reforma tornou-se inevitável.
Curiosamente, a urgência desse debate não é mais negada sequer dentro do próprio governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Embora a atual gestão seja historicamente refratária a reformas estruturais e frequentemente incline-se a ampliar benefícios que produzem dividendos políticos imediatos, vozes relevantes dentro do Executivo já reconhecem que ajustes são necessários. O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, tem defendido de forma reiterada que o sistema previdenciário brasileiro precisa passar por revisões contínuas. Em declarações recentes, ele apontou duas frentes essenciais para a contenção do crescimento das despesas: o sistema de aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo mensal a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência e tem apresentado expansão em ritmo de dois dígitos.

A necessidade de revisão do sistema não decorre apenas de pressões fiscais conjunturais, mas também de transformações demográficas profundas. O envelhecimento acelerado da população e a queda da taxa de natalidade são fatores centrais nesse diagnóstico. Segundo o próprio Ceron, a Previdência precisa ser ajustada continuamente para acompanhar o aumento da expectativa de vida da população. Trata-se de uma premissa elementar: quanto mais tempo as pessoas vivem, mais tempo recebem benefícios, o que exige equilíbrio entre o período de contribuição e o período de aposentadoria.
As projeções disponíveis reforçam o caráter urgente dessa agenda. Um levantamento divulgado no ano passado pela FecomercioSP estimou que o déficit previdenciário pode atingir R$ 810 bilhões até 2040 caso nenhuma nova reforma seja realizada para reduzir o desequilíbrio financeiro do sistema. Ou seja, em apenas 14 anos o problema poderá praticamente dobrar de tamanho.
Estudos independentes apontam para conclusões semelhantes. O economista Rogério Nagamini, especialista em Previdência, calcula que, mantido o ritmo atual de crescimento das despesas observado em 2025, os gastos previdenciários tendem a dobrar aproximadamente a cada 17 anos. Trata-se de uma trajetória completamente incompatível com a evolução esperada do PIB brasileiro. Como a Previdência é a principal rubrica de despesa do setor público, seu crescimento descontrolado compromete diretamente a estabilidade fiscal. Nesse cenário, torna-se impossível sustentar o arcabouço fiscal atualmente em vigor, que limita a expansão real das despesas primárias a 2,5% ao ano.
Os dados analisados por Nagamini, publicados pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), evidenciam outro desequilíbrio estrutural do sistema. Entre 2014 e 2024, o estoque de benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) cresceu, em média, 2,4% ao ano. No mesmo período, o número médio mensal de contribuintes aumentou apenas 1,3% ao ano. A discrepância entre o ritmo de crescimento dos beneficiários e o dos contribuintes expõe uma equação cada vez mais difícil de sustentar. Trata-se de um problema complexo — em grande parte pelas implicações políticas de qualquer mudança —, mas cuja gravidade já não permite adiamentos indefinidos. Em 2025, os gastos com Previdência Social ultrapassaram pela primeira vez a marca de R$ 1 trilhão, atendendo mais de 118 milhões de brasileiros.
Quando se celebra o fato de que a microeconomia depende cada vez mais da renda das aposentadorias — e não da renda gerada pelo trabalho — cria-se um ambiente político pouco favorável a ajustes estruturais. Ainda assim, a realidade fiscal e demográfica se impõe com crescente intensidade. Ignorar esse cenário não o fará desaparecer. Ao contrário: apenas tornará o problema maior e mais difícil de resolver no futuro.
Publicado originalmente em https://agorarn.com.br/ultimas/previdencia-segue-para-colapso-sem-nova-reforma/
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