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Saiba as melhores táticas para o investidor se proteger em tempos de guerra

 

(Unsplash)
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O conflito entre Irã e Estados Unidos e Israel, que pode se espalhar para outros países do Oriente Médio, está mexendo com os mercados globais e com os investimentos também no Brasil. O ideal, porém, é que o investidor mantenha o sangue frio e não se deixe levar pelas fortes flutuações do mercado, evitando tomar decisões precipitadas, alertam analistas.

Perdas com títulos longos de renda fixa diante da alta dos juros e da marcação a mercado não mudam o cenário para quem vai levar o papel até o vencimento. Já os mercados acionários tendem a reagir mais emocionalmente no curto prazo, voltando à racionalidade com a avaliação dos impactos reais nos fundamentos da economia nos próximos dias. Fundos multimercados também devem enfrentar fortes oscilações em suas cotas, mas podem acompanhar uma eventual recuperação dos mercados.

A escalada militar entre Estados Unidos e Irã reintroduz no mercado global um fator clássico de ruptura: o risco geopolítico, capaz de alterar simultaneamente inflação, juros e fluxo de capitais, afirma Gustavo Assis, CEO da Asset Bank.

Após os ataques, bolsas globais passaram a operar em queda, enquanto investidores migraram rapidamente para ativos defensivos, refletindo um movimento típico de aversão ao risco.

Maior erro

Em momentos como este, o maior erro do investidor é reagir emocionalmente à volatilidade de curto prazo, alerta Assis. Conflitos geopolíticos não destroem valor estrutural imediatamente, mas provocam reprecificação abrupta de risco. O mercado passa a embutir prêmios maiores em juros, câmbio e ações, o que provoca quedas rápidas, porém muitas vezes temporárias.

“Historicamente, o capital busca proteção em ativos líquidos e globais, como dólar, ouro, títulos soberanos e empresas ligadas a energia e commodities, enquanto setores cíclicos e dependentes de crescimento sofrem mais”, afirma Assis.

Segundo ele, o investidor precisa entender que a preservação do patrimônio, nesse tipo de cenário, depende menos de tentar prever o desfecho da guerra e mais de manter diversificação real, exposição internacional e liquidez suficiente para atravessar o período sem necessidade de venda forçada.

Preservar o capital

Segundo ele, a estratégia racional passa por reduzir concentração em risco local, equilibrar a carteira com ativos descorrelacionados e priorizar empresas com geração de caixa previsível, baixa alavancagem e capacidade de repasse de preços. “Episódios como o atual tendem a elevar inflação global e prolongar juros elevados, o que favorece renda fixa de qualidade, posições dolarizadas e proteções naturais contra choque externo”, afirma Assis.

Para ele, porém, mais do que buscar ganhos imediatos, o investidor deve focar em atravessar a turbulência preservando capital, porque é justamente após momentos de estresse que surgem as melhores oportunidades de entrada para o próximo ciclo de valorização.

Índice do medo dispara

A escalada da guerra envolvendo o Irã trouxe aumento da aversão ao risco nos mercados globais. No curto prazo, o principal impacto tem sido a alta da volatilidade, refletida no avanço do CBOE Volatility Index (VIX), o chamado “índice do medo” da Bolsa de Chicago, que chegou a subir mais de 15% e reduziu a alta para 6% no início da tarde.

Além disso, há a valorização de ativos considerados porto seguro, como o ouro, observa Marcelo Karvellis, CIO da SWM Multi Family Office. Ao mesmo tempo, o risco de interrupções na oferta de energia impulsiona o petróleo, elevando preocupações com inflação. As bolsas tendem a sofrer no primeiro momento, com maior prejuízo para setores cíclicos e empresas mais endividadas.

No médio prazo, o comportamento dos mercados dependerá da duração e da intensidade do conflito, afirma Karvellis. Caso o episódio seja limitado, a volatilidade tende a diminuir gradualmente e os preços dos ativos podem se estabilizar.

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Entretanto, uma escalada prolongada poderia manter o petróleo em patamar elevado, pressionar a inflação e reduzir o espaço para cortes de juros, afetando negativamente o crescimento econômico e os lucros corporativos.

Diante desse cenário, Karvellis alerta que o investidor deve evitar decisões emocionais e priorizar a disciplina. “Posições em ouro ou em empresas produtoras de petróleo podem funcionar como proteção, assim como movimentos táticos em volatilidade (VIX)”, afirma. Preservar liquidez e focar em empresas com fundamentos sólidos, baixa alavancagem e geração consistente de caixa são estratégias importantes para atravessar períodos de turbulência sem comprometer o patrimônio, recomenda.

Evitar reações emocionais

Em um cenário de escalada geopolítica como o atual, o mercado tende a reagir com aumento de volatilidade, alta do petróleo, fortalecimento do dólar e ouro, bem como movimentos defensivos nas bolsas, observa Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. O impacto dependerá da duração do conflito, já que, se a tensão for pontual, parte do prêmio de risco pode ser devolvida rapidamente.

Mas se houver prolongamento, o petróleo mais alto pode pressionar inflação e juros, afetando principalmente ativos mais sensíveis ao ciclo econômico.

“Sempre defendo a ideia de que, para o investidor, o foco deve ser gestão de risco, não reação emocional”, afirma Lima. “Reduzir alavancagem, ajustar tamanho de posição e manter diversificação são medidas mais eficazes do que tentar antecipar manchetes”, acrescenta.

Para ele, exposição a ativos dolarizados e empresas ligadas a commodities pode funcionar como proteção parcial, enquanto disciplina e preservação de capital tendem a ser as melhores estratégias em períodos de turbulência.

Impactos temporários

Em momentos de escalada de tensão geopolítica, como no caso da guerra envolvendo o Irã, é natural observar uma reação imediata dos mercados, diz Maria Levorin, CFA, sócia responsável pelas áreas de Wealth e Distribuição da Multiplica Crédito e Investimento. No curto prazo, ela vê um aumento relevante da volatilidade, especialmente nos mercados acionários e de juros, o que impacta temporariamente o preço dos ativos. Esses movimentos mais bruscos refletem, principalmente, a incerteza e o reposicionamento de risco por parte dos investidores.

No médio prazo, o principal canal de impacto para os mercados pode vir por meio do petróleo. Uma alta mais persistente da commodity tende a gerar pressão inflacionária global, com possíveis reflexos nas curvas de juros. Ainda assim, historicamente, os mercados acionários costumam se recuperar à medida que a visibilidade melhora e os fundamentos das empresas voltam a prevalecer, explica Maria.

“Para o investidor, acredito que o mais importante é ter cautela”, afirma ela. Em momentos de turbulência, agir por impulso pode levar à realização de perdas desnecessárias. Movimentos bruscos de alocação, sem uma análise estratégica, podem comprometer resultados no longo prazo, diz a executiva.

Oportunidades

Empresas sólidas, geradoras de valor e que não têm exposição direta às regiões afetadas ou ao setor de petróleo tendem a manter seus fundamentos preservados. “Quando vemos quedas motivadas por aumento de aversão a risco e não por deterioração estrutural dos resultados podem surgir boas oportunidades de compra para quem tem visão de médio e longo prazo”, diz.

Segundo ela, a recomendação é manter disciplina, respeitar o planejamento financeiro e avaliar se a carteira está alinhada ao perfil de risco. “Ajustes podem ser necessários, mas devem ser feitos de forma estratégica, e não reativa”.

Dólar tende a se enfraquecer

No curto prazo, com o conflito, a pressão sobre os preços do petróleo pode elevar a inflação nos EUA e no Brasil, afetando expectativas para a política monetária, diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio fundador da Forum Investimentos. “Na minha visão, é também razoável esperar um aumento da aversão a risco, com pressão sobre ativos mais voláteis como as bolsas de valores e a valorização do dólar frente ao real”, avalia.

No médio prazo, no entanto, os riscos fiscais trazidos pelo conflito à economia americana, que já se encontra bastante endividada, tendem a reforçar a tese mais estrutural de enfraquecimento do dólar. “Tudo, é claro, a depender da profundidade e duração do conflito.”

Segundo ele, o investidor pode se proteger com ativos defensivos como ouro e empresas que se beneficiam da alta do petróleo (e do dólar) que são boas alternativas. Na renda fixa, classes de ativos mais conservadoras, como a renda fixa pós-fixada, através do Tesouro Selic ou de CDBs de bons bancos, também são boa alternativa de proteção.

Ver como é que fica

Em geral, perde-se mais dinheiro tentando antever as crises do que na própria crise, diz João Daronco, analista da Suno Research. “Eu acredito que o primeiro cuidado é não agir por impulso, ser racional, pois a gente tem dificuldade em entender a dimensão desse conflito, por quanto tempo ele deve se estender”, afirma.

Ele espera um efeito mais direto da guerra sobre as empresas de petróleo, que devem ganhar com a alta dos preços, enquanto empresas que usam a commodity como matéria-prima podem sofrer com o aumento de custos. “Mas, novamente, acredito que nesse primeiro momento o melhor é não fazer nada por enquanto e aguardar para ver qual deve ser a duração desse conflito”, diz.

O segundo ponto é se os impactos no mercado devem ser de longa duração, o que pode levar a pressões sobre a inflação e sobre a trajetória dos juros. “É preciso ver se vai ocorrer uma mudança no regime político do Irã, se ela vai ser rápida ou lenta, se vamos ter um bloqueio do Estreito de Ormuz por mais tempo, se o conflito vai se ampliar, mas é muito cedo para saber disso”, diz.

Assim, a recomendação de Daronco para o investidor de varejo é manter a calma e ser racional.

Ação para liberar Ormuz

Alexandre Pletes, sócio e Head de Renda Variável da Faz Capital, lembra que o petróleo já vinha em alta há mais de um mês diante das ameaças do presidente Donald Trump ao Irã. “Agora com o conflito ele somou uma alta em torno de 8%”, diz. Mas, segundo ele, a tendência é que de alguma forma os Estados Unidos e seus aliados tomem o comando do Estreito de Ormuz e façam com que a produção escoe e esse preço deve se normalizar. “Na semana passada a Opep também já aumentou a oferta, para aproveitar obviamente esses preços altos”, diz.

Para ele, o ponto a se observar no curto prazo é o impacto inflacionário, que pode frear os cortes de juros, que vai depender do repasse da alta do petróleo para o consumidor. “Aqui, isso pode acabar adiando a possibilidade de corte da Selic”, afirma.

Pletes espera, porém, pressões de outros países dependentes de petróleo para que o fluxo seja normalizado. Para o Brasil, a vantagem é que o país é exportador de petróleo e se beneficia da alta de preços.

A alta do dólar diante do real também deve ser um movimento pontual e a entrada de investimentos no país deve fortalecer a moeda brasileira no médio prazo. “Acredito que não deve ter um impacto tão acentuado na inflação, até porque o próprio secretário de defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth disse que essa guerra tem data para acabar, ou seja, eles têm um plano muito bem traçado sobre o que fazer daqui pra frente”, avalia.

Para Lucca Bezzon, analista de Inteligência de Mercado da Stonex, nesses momentos, os principais ativos de maior risco geralmente que costumam ter retornos maiores tendem a ser prejudicados diante da incerteza. Ao mesmo tempo, há altas do dólar e do ouro, que historicamente são ativos procurados em momentos de incerteza. Ele lembra que o dólar há alguns meses vinha tendo essa posição de porto seguro questionada diante de todas as incertezas com relação à economia americana, mas hoje ela ainda é o principal ativo de reserva, juntamente com os títulos do Tesouro americano.

Publicado orginalmente em https://www.infomoney.com.br/onde-investir/saiba-as-melhores-taticas-para-o-investidor-se-proteger-em-tempos-de-guerra/

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