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Com R$ 8 tri em jogo, sair do crédito privado agora pode ser um erro caro, diz gestor

O mercado internacional de crédito privado, que movimenta cerca de US$ 1,5 trilhão — algo em torno de R$ 8 trilhões — passou por um período recente de forte ajuste e realocação de recursos.

Segundo Vinicius Raggio, sales specialist no Morgan Stanley, os números, porém, não sustentam o clima de preocupação que se instalou: para ele, parte dos investidores que se desfez das cotas às pressas pode ter tomado uma decisão precipitada.

Esse mercado ganhou protagonismo depois da crise financeira de 2008, quando grandes bancos, pressionados por reguladores, reduziram a concessão de empréstimos diretos às empresas.

O espaço foi ocupado por gestoras independentes, que passaram a emprestar diretamente para companhias e, mais tarde, levaram essa oportunidade ao investidor comum por meio de fundos com aplicação mensal e opções de resgate trimestral.

Foi exatamente sobre esse mercado — seus riscos reais e suas oportunidades — que Raggio, responsável pela distribuição de produtos de investimento do Morgan Stanley, conversou com Mayara Rodrigues, analista de renda fixa da XP Investimentos, durante a Semana Renda Fixa.

Segundo Raggio, praticamente todos os anos há algum nível de problema nessa classe de investimento e esse comportamento faz parte da dinâmica do mercado, não sendo, por si só, motivo de alarme.

Os fundos, explicou, já embutem esses riscos na taxa de retorno que oferecem ao investidor.

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Retiradas

Um ponto que chamou a atenção de investidores foi o bloqueio temporário de retiradas — um limite estabelecido em contrato que impede saques acima de 5% do patrimônio total do fundo em um único trimestre.

Para Raggio, isso não é um sinal de crise, mas sim a proteção que viabiliza o acesso do investidor comum a essa categoria.

“Esse bloqueio não é um erro, não é um problema — ele é a grande solução. É ele que permite ao investidor de varejo ter acesso a essa classe de ativo”

— Vinicius Raggio, especialista do Morgan Stanley.

O especialista do Morgan Stanley foi enfático ao separar o que acontece hoje do que ocorria em outros tipos de fundos no passado.

Em fundos de gestão livre, como os chamados fundos multimercado agressivos, o bloqueio de saques costumava sinalizar que o fundo estava perdendo dinheiro e sem condições de honrar os resgates.

No crédito privado internacional, a lógica é completamente diferente: os ativos dentro desses fundos são empréstimos feitos diretamente a empresas, com prazo médio de 3,5 anos, que não podem ser vendidos em um dia sem prejuízo. Os dados confirmam essa distinção. Nos casos em que o bloqueio foi acionado, os pedidos de resgate chegaram a representar 6%, 7% ou 8% do patrimônio total — mas esse patrimônio, na maioria dos casos, estava crescendo, não minguando.

“Não houve queda de patrimônio dos fundos, houve aumento de patrimônio”, pontuou Raggio. Quem pediu resgate recebeu, de forma proporcional, até o teto permitido — e o restante será pago nas janelas seguintes.

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Dois casos específicos, que ganharam repercussão, também foram desmontados por Raggio. As inadimplências das empresas americanas First Brands e Tricolor foram apresentadas como evidência de deterioração sistêmica, mas o especialista foi direto: a Tricolor envolvia um tipo diferente de operação de crédito e teve elementos de fraude — nada relacionado ao que estava sendo discutido.

A First Brands teve uma parcela em empréstimo direto, mas dentro do que qualquer fundo do setor prevê e aceita em seu regulamento.

Publicado originalmente em https://www.infomoney.com.br/onde-investir/com-r-8-tri-em-jogo-sair-do-credito-privado-agora-pode-ser-um-erro-caro-diz-gestor/

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